O mercado de tênis de corrida está em constante evolução, com novas tecnologias desenvolvidas para melhorar o desempenho e reduzir o risco de lesões.
Um dos aspectos mais discutidos é a altura da entressola (stack height), cujos efeitos na corrida ainda não são totalmente compreendidos.
Um estudo conduzido pelos pesquisadores Cagla Kettner, Bernd Stetter e Thorsten Stein, do Instituto de Tecnologia Karlsruhe (Alemanha) (https://doi.org/10.3389/fbioe.2025.1526752), investigou como diferentes alturas de entressola impactam o estilo de corrida e a estabilidade em diferentes velocidades.
O que o estudo avaliou?
Os pesquisadores avaliaram 17 corredores experientes utilizando três tipos de tênis (Figura 1), diferenciados pela altura da entressola:
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Alta (50mm)
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Média (35mm)
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Baixa (27mm)
Figura 1. Tênis testados no estudo. No lado esquerdo, altura da entressola alta (50mm), no meio, média (35mm) e no lado direito, altura da entressola baixa (27mm) (Adidas Adizero RC4)
Os participantes correram em esteira a velocidades de 10 km/h e 15 km/h, enquanto dados biomecânicos foram coletados por um sistema de captura de movimento 3D (Vicon Motion Systems).
Principais descobertas
Mudanças no estilo de corrida
Maior oscilação vertical: Quanto maior a entressola, maior foi a oscilação vertical do centro de massa, indicando um menor aproveitamento da energia na propulsão horizontal. Isso pode reduzir a eficiência da corrida e aumentar o impacto articular a cada aterrissagem.
Maior tempo de contato com o solo: A entressola mais alta prolongou o tempo de contato do pé com o solo em relação ao tempo total da passada. Isso pode reduzir a eficiência na transição para a fase de impulso, afetando a economia de corrida e a resposta do tênis.
Redução da cadência em velocidades mais altas: Com entressolas mais altas, a frequência de passadas diminuiu em relação ao comprimento da perna a 15 km/h. Isso sugere passadas mais longas e menos frequentes, o que pode modificar a sensação de contato com o solo e influenciar a biomecânica da corrida.
Impacto na estabilidade
Maior tempo de eversão do pé: A entressola mais alta aumentou o tempo de eversão (rotação para dentro) do pé, o que pode indicar menor estabilidade do tornozelo e maior risco de lesão, incluindo tendinites e fascite plantar.
Redução da estabilidade dinâmica do quadril: Isso pode comprometer o controle postural, aumentando o risco de quedas e sobrecarga em articulações como joelhos e tornozelos.
Estabilidade global mantida: Apesar das diferenças locais, os corredores conseguiram manter um padrão de locomoção funcional, sugerindo que o corpo compensa algumas instabilidades por meio de ajustes posturais e neuromusculares.
O que isso significa para os corredores?
Os resultados sugerem que entressolas muito altas podem impactar o estilo de corrida e a estabilidade, especialmente em velocidades mais altas. Assim, encontrar um equilíbrio entre conforto, amortecimento e estabilidade é essencial para otimizar a performance e prevenir lesões.
No entanto, este estudo não incluiu a análise da carga articular nem medidas de desempenho na corrida, como VO2.
A regulamentação da World Athletics, que limita a altura da entressola a 40 mm para competições oficiais, parece estar alinhada com esses achados, pois um stack height muito elevado pode comprometer a estabilidade biomecânica.
Conclusão
A escolha do calçado ideal depende de diversos fatores, como objetivos do corredor, tipo de prova e histórico de lesões.
Dica Lebre: Para aqueles que preferem entressolas mais altas, testar diferentes modelos e observar como afetam o conforto e a estabilidade ao longo do tempo é fundamental. Venha conhecer o Protocolo Lebre para encontrar o tênis ideal ou avaliar o seu atual modelo.
Texto: Gustavo Jacob Lourenço ([email protected])